1ª Coletânea Poética Terras da Gândara

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1ª Coletânea Poética Terras da Gândara

10,00  9,00 

Autores: Coordenação de Frankelim Amaral com vários autores

Data de publicação: Julho de 2019

Número de páginas: 104

Depósito Legal: 458139/19

Género: Poesia 

Idioma: Português

Descrição do Produto

UMA TEIA DE ORVALHO ACESO

Atravessou Corrocovo atalhando pelo caminho de bois à estrada da vila. A manhã, tecida de azul vítreo, húmido, resplandecia em milhares de folhas: uma teia de orvalhoaceso pelos raios de sol.

CARLOS DE OLIVEIRA
In A Casa na Duna

Diante da 1ª COLETÂNEA POÉTICA TERRAS DA GÂNDARA, como diante de terra há pouco semeada – ainda a exalar o leve cheiro a húmus -, nasce em mim um sentimento novo, uma impressão estranha, gemelar nas letras, de que ainda continua a haver gente no mundo que, tal como eu, também sonha; pessoas que imaginam e escrevem, teimando em deitar no papel palavras com sentimentos, num mundo algo caótico, obstinado e frio, enfim, há ainda alguém que semeia trovas no vento que passa1, fios de versos, simples, com mel ternura, quentes, expostos em livros.
Mas o meu alvoroço não termina aqui, ao invés, agiganta-se, quando a par com palavras simples, às vezes, balbuciadas, se lhes misturam cadilhos de emoção, se lhes denudam, descarnadas almas, e nos mostram o são daquilo que têm dentro, mas que só os eleitos são capazes de revelar. O que admiro mais no Homem é esta capacidade de construir mundos, de edificar universos, de que o poeta é, no contexto da publicação de um novo livro, um ser invulgar, porque se expõe. Reitero que apenas o indício de vontade revelada já me espantaria, quanto mais se um poema, depois de semeado, florescer e der frutos. Neste caso, o ciclo completa-se no auge, quando a
escrita está associada a novas leituras, criando assim mais robustas sementes, que darão colheitas mais abundantes, tal como diz Raul Brandão, o homem que quer por força que existam mundos novos – quando eles não existem para mais ninguém – e que sacrifica a vida, a família, as alegrias vulgares, a uma obra que parece irrealizável, a um sonho que parece absurdo. Não vê mais nada. Nem gritos ouve. Para melhor sonhar isola-se numa pedra, e tanto sonha que o absurdo acaba por tornar-se em terras novas e em realidades prodigiosas…
O talento não conta, o que é importante aqui é a vontade, a grandeza da tentativa de sonhar alto, de realizar obra, com o que de melhor que nos é dado saber. Toda a poesia simples, mas verdadeira, de imagens cândidas,
mas buscadas na paisagem cheia de azul, é legítima.
Todavia, trago à colação um diálogo que tive, há uns anos, no stand Gradiva, na Feira do Livro de Lisboa. Ambos sentados em frente de uma mesinha de madeira, sob um guarda-sol, no intervalo de autógrafos, o exímio pensador,
o Mestre Eduardo Lourenço questionou-me sobre com quem tinha o prazer de estar, hoje, lado a lado neste certame? Ao que lhe respondi: sou um humilde, simples e desconhecido escritor das Terras da Gândara, região
soberbamente tratada na poesia e no romance por Carlos de Oliveira, em suma, eu, António Canteiro, não sou nada face ao vulto das letras que tenho a honra de ter a meu lado. Retorquiu, logo, o homem sábio de mais de
noventa anos de escrita e cultura, nestes termos: eu, você, o Carlos de Oliveira e tantos outros de quem se diz serem muito, daqui a uns anos não são nada, são anónimos diante de Shakespeare, Dante, Camões ou Goethe.
A terra como palco de andanças do Homem, em diversos momentos da civilização, marca-o no cerne, pela raiz, no modo como se veste, nos costumes, nos elementos do quotidiano, na linguagem, no todo com o qual interage e que pertence ao lugar, ao universo que o rodeia, sendo os temas, as personagens, o imaginário, a arte, insertas no contexto onde vive, e que se refletem em tudo o que se faz. O mesmo ocorre também no universo literário e mais especificamente na poesia. Ora, o universo a que nos referimos tem origem no topónimo Gândara, associado a Ganda, terreno arenoso, mais ou menos estéril, esse material solto, designado pelas populações indígenas de
Gandadia, o cascalho proveniente, no caso em apreço, das águas do mar.
Este universo delimita-se geograficamente (não havendo, porém, consenso sobre o tema), pela sub-região constituída, a sul, pelos concelhos de Figueira da Foz (a partir da Serra da Boa Viagem), Montemor-o-Velho, Cantanhede (com fronteira, a este, no Baixo Mondego e Bairrada), Mira (único município no seu todo) e Vagos, na marquem sul do rio Boco, delimitado a oeste pelo mar.
A Gândara, terra infértil, necessita de estrume, húmus, para criar. Um bemhaja ao agricultor que a este terreno se dedica, o poeta Frankelim Amaral, pela coordenação e organização desta obra. Resta sublinhar que a publicação
da 1ª COLETÂNEA POÉTICA TERRAS DA GÂNDARA surge num tempo literário em que a ficção gandaresa se encontra revoada (depois Carlos de Oliveira e de Idalécio Cação) de escritores premiados como Silvério Manata,
Fátima Bica, Lurdes Breda, para além do autor destas linhas, isto na prosa de ficção. O mesmo não acontece com a arte do texto curto ou a dita poesia, esperando que esta publicação (e outras, vindouras) sejam a manta de terra
arável sob a qual nasçam, futuramente, novos poetas que se consagrem no mapa das letras nacionais.

António Canteiro
Barracão – Febres, 11 de janeiro de 2019

Informação adicional

Peso 0.100 kg
Dimensões (C x L x A) 15 x 21 cm