A CRUCIÁRIA

capa final
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A CRUCIÁRIA

15,00 

Coordenação:  Nuno Nascimento Martins

Data de publicação: Setembro de 2021

Número de páginas: 254

ISBN: 979-109737014-5

Género: Romance

Idioma: Português

Descrição do Produto

SINOPSE

Na véspera de Natal, Mata do Sabor recebe a visita de Trincão, emigrado no Brasil há mais de quarenta anos, que transporta a ambição de percorrer as quelhas, os largos, os palheiros, as casas de famílias de que ainda se recordava; visitar o cemitério, a igreja, as capelas; entrar nos sítios abertos ou recônditos onde se nascia para a vida adulta ou se trocavam olhares namoradeiros; chorar o presente e sangrar com a destruição da cultura agro-pastoril e da economia rural transmontana; olhar as hortas, cortinhas, embelgas que rodeiam a aldeia; percorrer os lameiros por onde correra em garoto, olhando o céu anil e rebolando em feno seco; cheirar os fetos das veredas, comer amoras silvestres nos renques e beber água cristalina nos ribeiros, por entre áleas de freixos e oliveiras; atravessar a rede, pescar barbos, bogas e escalos no rio Sabor e capturar lagostins nas margens do rio Maçãs.

Encontra apenas uma a prima afastada que vive enclausurada na vetusta cafua herdada dos pais. Enquanto consoam, escuta a história do abandono e ocupação da aldeia por animais selvagens e a morte dos últimos lapuzes, que viviam encarcerados em pardieiros herdados de avós. Salomé, mulher livre e ousada, tenta, na decrepitude da vida, reanimar a aldeia e congraçar os sobrevivos numa espécie de sodalício – o reino da Lapúzia – sustentado na doutrina filosófica do hedonismo racional de Epicuro, que se revelaria uma tragédia que o aniquilaria.

 

PREFÁCIO

A aldeia Mata do Sabor, situada no interior do Interior do Nordeste transmontano, onde acontece a trama deste romance, é ficção pura, mas bem podia ser Matela, a minha terra natal, encravada entre os rios Sabor e Maçãs, tal como a aldeia ficcionada, ou uma das muitas outras aldeias isoladas da serra de Montesinho, da serra da Lousã, da serra do Caldeirão ou um qualquer dos montes dispersos e isolados do Alentejo. Mata do Sabor tem a configuração de Matela – topónimos, habitações, ruas, caminhos, montes, rios, ribeiros, rincões – e Salomé, a heroína cruciária desta trama, viveu esta ficção na casa, ligeiramente alterada por necessidades narrativas, dos avós paternos do autor.

Este romance chama à atenção para a contínua desertificação do interior rural, berço de gente esforçada que nunca pediu nada aos diferentes poderes, em ditadura ou em democracia, e deles pouco recebeu, apostando desde sempre no trabalho e na temperança para sustentar, educar, formar os filhos e ajudá-los a abandonar a aldeia, onde a forma de vida atávica pouco evoluíra desde a Idade Média até à Revolução de Abril: a terra como riqueza ancestral e os animais domésticos como fonte de energia e açougue privilegiado para acesso a proteínas animais.

A estrutura agrária assente no minifúndio manteve-se imutável durante séculos porque o acesso à propriedade agrária como fonte de subsistência, mas não de prosperidade ou bem-estar, foi sempre o único caminho para garantir batatas, couves e azeite para o jantar. Da terra, das hortas, dos montes e da pastorícia provinha a subsistência de pessoas e animais, a energia para atear as lareiras que aqueciam as cozinhas, a pedra com que construíam pardieiros, o linho com que teciam toalhas para enfeitar mesas festivas e lençóis para cobrir enxergões de palha, a lã para tricotar camisolas, coturnos e urdir burel para fazer capotes transmontanos. Esta estrutura agrária, que durante séculos matou a fome às gentes do Nordeste, fornecendo abundância de hidratos de carbono, nunca dispôs nem dispõe de dimensão que atraísse investimentos empresariais dotados de inovação e novas formas de produção que proporcionassem rentabilidade atractiva.

Esta ancestral situação agrária, financeira e económica enxotou os filhos dos rurais para o Brasil, no início do século XX, para o centro da Europa, no terceiro quartil, e para as grandes cidades do litoral português, a partir do último quartil da última centúria. Esta última debandada de migrantes foi constituída por sucessivas súcias de jovens letrados, saídos dos liceus, institutos e universidades, que acederam à sociedade da conhecimento e informação financiados pelos pais, amanhadores de jeiras e criadores de vitelos, que canalizaram todas as poupanças arrancadas da terra para os filhos pagarem os quartos alugados nas cidades e os livros comprados a fiado nas livrarias, ou pelos pais emigrantes que desertaram do país com o objectivo sublime e impagável de ganharem capacidade financeira para educar os filhos e empurrá-los para os empregos no litoral, longe das embelgas da miséria. Sacrifícios de homens valentes e destemidos que porfiaram no trabalho, no conhecimento e nas oportunidades que a democracia abriu para extraírem os filhos da miséria numa geração, quando em ditadura se consumiam três gerações para igual escopo.

O dinheiro, infamemente derramada por Bruxelas no mundo rural através da PAC – Política Agrícola Comum, quer na componente estrutural destinada a incentivar o investimento e a modernização agrícola quer na componente destinada a manter baixos os preços e acessíveis os mercados agrícolas, revelou-se um desperdício de que aproveitaram prosélitos, oportunistas e preguiceiros e que em nada alterou a inovação, métodos de trabalho e muito menos a ancestral estrutura fundiária e o velho modo de vida fisiocrata.

A fuga louvável de deserdados, neste século e no anterior, ditou a desertificação e abandono de muitas aldeias rurais, onde agora sobrevivem escassas dezenas de anciãos apoiados em cajados de freixo, incapazes de abandonar os pardieiros, os móveis e as jeiras de avós para se encarcerarem em exíguos apartamentos suburbanos. Vive-se a morte lenta de muitas aldeias transmontanas; assiste-se ao abandono dos campos e ao triunfo da indomável vida selvagem, que poder nenhum – religioso, autárquico, central ou comunitário – consegue travar.

Como sempre sucedeu em todas as épocas horrendas da história e em todas as condições cruciantes de vida, há sempre um poeta que desassossega: Há sempre alguém que resiste; Há sempre alguém que diz não.

 

Ericeira, 8 de abril de 2020

Ao 31.º dia de confinamento provocado pelo coronavírus

 

 

Informação adicional

Peso 0.400 kg
Dimensões (C x L x A) 21 x 15 x 1.5 cm